Capítulo 1

Minha mãe veio ao meu quarto, bateu à porta pela décima vez, até que criei coragem para levantar. Passei quase a noite toda acordada, rolando na cama, olhando para o ventilador rodando no teto e até cheguei a contar carneirinhos, mas não adiantou muito. E hoje é o dia mais importante em meus dezoito anos de vida.


— Melissa! — ouço minha mãe me gritar de novo.


Enfim me levanto da cama, arrumo os lençóis e dobro a coberta, nem acredito que esta vai ser a última vez que vou fazer isso, pelo menos por um bom tempo. A partir de hoje, esse quarto deixa de ser meu refúgio. O barulho dos saltos dos sapatos de minha mãe denuncia que ela está vindo novamente em direção ao meu quarto, logo em seguida ouço mais uma batida na porta.


— Já estou acordada! — Respondo e consigo ouvi-la descer para a cozinha.


Quando entro no banheiro, ligo o chuveiro e deixo a água quente escorrer pelo meu corpo, mas logo sinto um calafrio, fico parada esperando que a sensação ruim passe logo, até porque passei quase a minha vida inteira me preparando para o dia de hoje: meu primeiro dia na faculdade.


Usava os fins de semana para estudar, pesquisar e ler, enquanto outras pessoas da minha idade saíam para festas, bebiam e sempre se metiam em confusões. Eu era a garota considerada nerd que passava horas e mais horas estudando no chão do meu quarto, enquanto minha mãe ficava assistindo programas de moda, beleza e culinária.


No dia em que chegou a carta informando que eu tinha passado para a faculdade, fiquei muito feliz, não conseguia me conter de tamanha felicidade, eu estava sozinha em casa e mal podia esperar para contar a minha mãe e para Francisco também.

Lembro-me como se fosse ontem, naquele dia convidei Francisco para jantar conosco, pois achei que seria mais fácil dar a notícia. Depois que terminamos de jantar, retirei e lavei toda a louça e fui para sala, onde vi que os dois conversavam, então disse:


— Tenho uma novidade para contar a vocês! — falei, mas mal estava conseguindo controlar minha empolgação.


Todos dois ficaram curiosos, então pedi que esperassem enquanto eu ia até o quarto para buscar a carta. Assim que voltei à sala, finalmente acabei com o suspense e contei, minha mãe inicialmente não acreditou, então lhe mostrei a carta e por um minuto achei que ela fosse desmaiar.


Esperava que minha mãe fosse ficar feliz assim como eu estava, mas ela simplesmente começou a chorar, enquanto Francisco ficou super feliz e pareceu me apoiar. Eu sentia que finalmente todo o meu esforço estava valendo a pena, além de conseguir entrar na faculdade, ainda tinha conseguido uma bolsa por conta da minha baixa renda.

Desligo o chuveiro e enquanto me seco, sinto que estou um pouco mais relaxada apesar da sensação de ter milhões de borboletas voando dentro do estômago. Enrolo-me na toalha e vou para o quarto. Sinto minhas mãos ainda trêmulas quando fecho os botões da blusa branca, visto uma calça jeans, que minha mãe fez questão que eu usasse.


Assim que termino de me vestir, me olho no espelho e para meu azar, há um rasgo na blusa, então opto por uma de cor azul escuro, calço as sapatilhas, passo uma escova no cabelo e dou mais uma olhada no espelho e agora está perfeito.


— Melissaaa!


— Já estou descendo, mãe! — digo e em seguida olho o relógio em cima da mesinha de cabeceira e ainda são sete horas, nem sei por que minha mãe está me gritando a todo o momento.


Quando entro na cozinha, me deparo com Francisco sentado à mesa e conversando com minha mãe. Reparo que ele está vestindo uma calça preta e uma blusa verde, seu cabelo ruivo está penteado para trás de forma impecável.


— O que está fazendo aqui?


— Oi minha universitária! — Ele diz e abre um sorriso perfeito ao se levantar e vir em minha direção.


— Melissa, isso lá é jeito de falar com seu namorado. — Minha mãe me repreende.


— O namorado é meu e eu falo do jeito que eu quiser.


— Tem alguém de mau humor hoje. — Ela comenta.


— Claro! De cinco em cinco minutos você fica me gritando.


— Realmente essa garota não me puxou! Você vai sentir falta de me ouvir te gritando.


Reviro os olhos e Francisco sorri, em seguida deposita um beijo em minha testa e volta a sentar-se na cadeira. Conheço-o desde a infância, crescemos praticamente juntos, frequentávamos a mesma escola, apesar de ele ser um ano mais velho, a mesma igreja, nossos pais eram amigos e acho que tudo isso favoreceu a gente ficar juntos.


Francisco era a única pessoa que estava comigo quando eu recebi a notícia de que meu pai estava desaparecido na guerra e que já o haviam dado como morto. Receber tal notícia foi como se tivessem tirado meu chão. Minha mãe pareceu enfrentar a notícia muito bem, uma vez que o casamento deles já não andava muito bem.


— O que está fazendo aqui? — Torno a perguntar enquanto sento-me à frente dele.


— Pensei que gostaria que eu lhe acompanhasse até a faculdade em seu primeiro dia.


— Ah sim, vai ser ótimo!


Posso notar que minha mãe desvia os olhos de seus ovos mexidos com bacon e passa a olhar em nossa direção, para tentar disfarçar, ela pergunta se vamos querer um pouco dos ovos, mas Francisco educadamente recusa, alegando já ter tomado o café da manhã e eu estou ansiosa demais para conseguir comer. Vou até a cafeteira e encho uma caneca, o gosto forte e amargo me conforta e desperta.


— Vou colocar as suas malas no carro. — Ele diz e com um beijo apressado, ele sai e me deixa sozinha com minha mãe.


— Você tem certeza de que vai com essa roupa? — Ela me olha da cabeça aos pés. — E não vai nem arrumar esse cabelo?


— Eu vou para a faculdade e não para uma festa.


— Mas pelo menos arruma esse cabelo para não chegar lá parecendo uma mendiga.


Levanto-me e vou até o espelho da sala, quando olho meu reflexo, imediatamente concordo com minha mãe, meu cabelo está um horror. Rapidamente volto ao meu quarto, ligo o babyliss na tomada e começo a fazer alguns cachos largos nas pontas.

Assim que volto ao andar inferior, Francisco está sentado no sofá da sala, parece estar perdido em pensamentos, mas assim que me vê parada aos pés da escada, rapidamente se levanta e vem ao meu encontro.


— Está bem melhor. Não acha, Francisco? — Minha mãe pergunta.


— Para mim, ela fica bonita de qualquer jeito.


— Obrigada, Fran.


— Pronta?


— Não sei se estou preparada. — Digo um pouco envergonhada, inclino a cabeça, mas ele apoia meu queixo com dois dedos, me fazendo olhá-lo.


— Não fica assim, sei que você vai se sair muito bem lá, afinal você se preparou tanto. — Ele tenta me incentivar.


Sei que é verdade o que ele está me dizendo, realmente me preparei muito para esse dia e não posso me deixar abalar agora, mas é muito difícil controlar os pensamentos que me causam medo e um aperto no coração. Será que Francisco irá suportar a distância que nos separa e não vai me abandonar? Ou pior ainda, me trocar por outra garota? Rapidamente trato de afastar tais pensamentos. Não posso duvidar do meu namorado, ele sempre foi compreensivo e aceitava todas as vezes que trocamos os planos de sair para ficarmos em casa, sempre me respeitou e me ama muito.


— Não sei se vou conseguir ficar longe de você por muito tempo!


— Prometo que vou lá te visitar, nem que seja só nos finais de semana, para te fazer companhia. — Fala e em seguida me abraça.


— Só nos finais de semana? Vai demorar muito!


— Podemos nos falar por telefone e chamada de vídeo também.


— É uma boa ideia, mas não sei se vai ser suficiente.


— Depois de alguns dias você vai estar tão ocupada que até vai esquecer de mim.


— Isso é uma calúnia, sabia?


— Estou brincando com você! — Sussurra próximo ao meu ouvido e me dá um beijo.


Quando passamos pela porta de casa, ao ver o carro com minhas malas, volto a sentir as borboletas no estômago, mas dessa vez sinto que é pior. Dou uma última olhada na casa e sou tomada por uma náusea e algumas lágrimas escapam e escorrem pelo rosto. Não tenho a menor ideia de como vai ser a faculdade, e de repente meus pensamentos são tomados por angústia, dúvida e medo.

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A. C. Barroso

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